maio 19, 2004

Direito por linhas tortas

O futebol é um bocado como a democracia: convém que haja alternância para as coisas serem saudáveis. E não basta apenas a possibilidade teórica da alternância, é preciso também que ela exista na realidade. De outro modo, é como a democracia na ilha da Madeira, onde ganha sempre o mesmo há 27 anos e nos querem convencer de que ganha com mérito. É salutar, pois, que o Benfica tenha ganho a Taça ao Porto. É salutar para todos, até para os portistas. Devemos reconhecer que nós, portistas, andamos mal habituados. Perder com o Milan, campeão europeu, na Supertaça europeia, ainda vá que não vá. Perder com esta equipa do Benfica, sejam quais forem as circunstâncias, dói mais. E, todavia, faz bem. A legião de adeptos do Benfica precisava da experiência, e nós também. Parabéns ao Benfica. Agora, também, não nos peçam de mais, à conta de que não sabemos perder. Com toda a franqueza, acho que o Benfica não mereceu esta Taça. Para começar, não mereceu chegar à final, depois de um percurso onde, ou ficou isento, ou jogou sempre em casa, em constrate com o FC Porto, que eliminou o Boavista e o Braga e Rio Ave, fora de casa. Depois, olho para a estatística do jogo e, em tudo o que interessa, o Porto foi mais do que o Benfica: emposse de bola, em ataques, em remates, em cantos, em bolas à trave. E jogou uma hora inteira com um jogador a menos— depois de uma época muitíssimo mais desgastante e exigente que o Benfica e a dias de disputar o mais importante jogo que existe em toda a Europa. E, depois daquele quarto de hora inicial, em que o Benfica podia e merecia ter acabado com um ou dois golos de vantagem, só deu Porto. E se o Benfica, sem ter criado por si qualquer oportunidade, conseguiu, nos 105 minutos restantes, virar o resultado, é porque Mourinho, não querendo ferir susceptibilidades, deu a baliza a Nuno – com consequências nefastas. Como dizia no comentário em directo da TVI Luis Norton de Matos (insuspeito de ser portista), foi com dez contra onze que o Porto demonstrou o porquê da supremacia que tem tido no futebol português nos últimos anos. Que me desculpe Mário Dias, mas não ganhou «a equipa que fez mais por isso». Se alguém se bateu pela vitória, mesmo em inferioridade numérica, foi o Porto e não o Benfica. Após o jogo, jantando com um grande amigo benfiquista, naturalmente radiante, pedi-lhe que me indicasse o nome de um jogador do Benfica que tivesse feito uma grande exibição e ele não foi capaz de me responder, ficou-se «pelo colectivo ». Mas eu sou capaz, do meu lado: o Paulo Ferreira que, tirando dois lances iniciais, secou por completo o Simão Sabrosa; o Ricardo Carvalho, inultrapassável, como de costume; o Nuno Valente, excepção feita à agressão ao Giovanni, já no prolongamento, e que teria merecido um vermelho directo; o Derlei e, obviamente, o Deco—perfeito, não fosse a insistência em marcar, e sempre mal, os livres perto da área. Mas nem todos estiveram bem no FC Porto: o Nuno, que mostrou todas as suas limitações, em particular, as saídas da baliza, entre o cómico e o trágico; o Jorge Costa, que devia dar o exemplo a acalmar as hostes e que esteve absurdamente nervoso, até conseguir ser expulso; o Pedro Mendes que, não justifica de todo a opção por um 4x4x2 onde se perde um homem na frente e não se ganha nada em troca, com ele no meio campo; o Costinha e o Maniche, ausentes e desconcentrados (será coincidência serem ambos dos mais insistentemente falados para irem para o estrangeiro?); e o Maciel, que parece ter atingido o seu patamar de Peter de ambição ao chegar ao Porto e que está preguiçoso e abúlico: agora vai de férias, mas é bom que meta na cabeça que para o ano vai ter que mostrar muito mais do que este ano. E sobra a «farsa», como lhe chamou José Mourinho: Lucílio Baptista. Eu disse-o antes do jogo: era um árbitro sem categoria nem merecimento para a final. Pouco me importa que seja internacional e esteja no Europeu: não tem valor para tal, é de um caseirismo indisfarçável, mau tecnicamente, sem saber usar a lei da vantagem e com um critério disciplinar comandado pela bancada. Ao primeiro minuto de jogo perdoou um amarelo a Fyssas, numa entrada a matar sobre o Derlei e aos cinco minutos perdoou outro ao Petit, por entrada idêntica sobre o Deco – como se a gravidade das faltas dependesse do momento em que são cometidas. Ao Petit mostrou-lhe o amarelo à terceira falta grosseira que ele cometeu e desfez-se em explicações de que já era a terceira. Mas ao Jorge Costa, mostrou-lhe um amarelo por cada uma das faltas que ele fez e deixou o Porto reduzido a dez, durante uma hora. Antes disso, tinha já perdoado o vermelho directo ao Fernando Aguiar por agressão por trás, sem bola, ao Derlei e, depois disso, por achar certamente que nove contra onze era de mais, perdoou a expulsão ao Nuno Valente (mas uma coisa é uma expulsão aos 60 minutos, outra aos 110...). Mas o mais rídiculo foi já mesmo no final, com o Petit no chão a ser assistido por caimbras há já 2.20me, continuando a ser assistido, ele fez sinal de dois minutos de desconto —e apesar de na jogada anterior se terem gasto três minutos só a formar a barreira do Benfica para um livre. Obviamente, e como já se tinha visto nos últimos dois jogos em Alvalade, Lucílio Baptista acha que lhe cabe a nobre missão de tentar equilibrar os jogos em que o FC Porto é parte. O que havemos nós de fazer? Esperar que ele se reforme rapidamente e que lá em cima deixem de o proteger. Li que já é a terceira final da Taça que lhe dão: já chega. E assim se escreveu direito por linhas tortas. Direito, porque, como acima disse, é bom para todos que o Benfica tenha ganho a Taça. Por linhas tortas, porque o Benfica não a mereceu ganhar pelo que jogou e, mais uma vez, fiquei com a ideia clara que, se o árbitro e o estádio não fossem do sul, outro galo cantaria. Se não acreditam, submetam-se à experiência. De qualquer modo, a verdade é que, num ano trágico e sofrido, o Benfica e a sua falange de adeptos — não todos, mas muitos — mereciam ganhar qualquer coisa. E, em não podendo ser o Campeonato, ao menos a Taça — o que sempre permitiu à direcção ter umas t-shirts preparadas para vestir no final, com a curiosa e sintomática frase: «Benfica, campeão da Taça de Portugal». Campeão da Taça de Portugal? Então, o que será o FC Porto — campeão do Campeonato?

Miguel Sousa Tavares

Ou este gajo é portista, ou não se manca, ou então tem uma ganda dor de cotovelo....

Eye

Publicado por Eye em maio 19, 2004 03:37 PM
Comentários

FDS! Ainda falam bem da escrita desse tripeiro. Eu nem estava a acreditar que o Crazy escrevia isto, do género Gabriel Alves, mas quando vi que era o MST, F###-##!!!!! 'MST é uma farsa' como diria o outro.

E sabem aquela do Jaime Pacheco que responde a um jornatista: 'Garcia Marquez! É um jogador...'

fiquem bem
Gdean

Afixado por: Gdean em maio 19, 2004 10:14 PM

Este senhor é um grande frustrado, que a par de outra grande frustrada (Manuela Boca Guedes) invejam tudo e todos os que acima deles estão!
E, para se sentirem grandes, ridicularizam o resto do mundo (é que eles são tão baixos tão reles, que até o cagalhão-peço desculpa pela linguagem- que está a boiar no Tejo neste momento é ridicularizado por tais espécimes, intelectualmente desonestos e insuportavelmente arrogantes!)

Afixado por: josé em maio 27, 2004 10:30 AM